quarta-feira, 18 de maio de 2016

Otimismo em Um País às Avessas


O Brasil vive hoje uma dos mais conflagrados momentos de sua história,ironicamente, desta vez não foram a pólvora ou os projéteis de armas que atingiram o povo, mas o nosso próprio voto.

Não que o presidente interino Michel Temer tenha votos, porque sua popularidade não passa de 1% neste país - o que nos faz presumir que apenas a sua família e amigos mais íntimos depositariam confiança em uma improvável candidatura.

Nem tampouco foram os 54 milhões de votos que sufragaram Dilma Rousseff como presidenta do Brasil. Não, os votos que nos atingiram com a força de balas de rifles disparadas à traição numa tocaia humilhante foram os que demos aos senadores e deputados do Congresso Nacional e Câmara Federal.

Disseram ouvir a voz de Deus como seria próprio a um fundamentalista religioso, entretanto, os nossos não tem a mesma dignidade de um Talebã, pois detonaram a bomba presa ao nosso corpo para salvarem-se a si mesmos. Assassinos sem honra.



Tentam agarrar-se a Temer e ao poder como a uma tábua em tormenta de mar aberto, e já existem indícios que conseguiram pequenos êxitos:

Temer chegou à cadeira da presidência por via indireta, porque a nossa lei eleitoral acaba de puni-lo transformando-o num candidato inelegível por 8 anos, caso resolvesse usar o método convencional para chegar ao mesmo lugar, qual seja, eleições diretas. Poderíamos chamar isso de "ponte para o futuro"?

Homens implicados e investigados por nossas autoridades federais sob os quais sempre pairaram poucas dúvidas sobre suas condutas criminosas, tornaram-se Ministros e alcançaram fórum privilegiado, dificultando o processo de apuração;

Ministério sem mulheres, sem negros, sem povos tradicionais, sem diversidade sexual. Apenas homens brancos como convém a um sistema feudal.



A mais alta corte do Brasil vive seu momento de maior descrédito e suspeição das últimas décadas, e há quem nos venha lembrar que não há muito o que esperar de um Supremo Tribunal Federal que foi conivente com o Golpe Militar de 64; não se posicionou contra o AI-5 que celebrou uma censura artística, política e de informação por quase 20 anos em nosso país; assim, como também não foi a instituição responsável pela redemocratização do Brasil na década de 80; e tampouco, a que nos devolveu nosso direito ao voto. Desolador.


A cereja do bolo seria a nossa mídia, ocupada em mistificar e em manipular informações, dados, estatísticas e discursos. Impostos eram ruim até poucos dias, agora são tendência nas machetes; Alta do dólar e depreciação do Real era um pecado ontem, hoje é um módico preço a se pagar pela felicidade de um país sem o PT; Juiz Sérgio Moro era uma celebridade e corrupção um new look, agora é tudo old fashion; jornalistas "imparciais" agora são governistas, e os jornalistas progressistas agora estão fora da ordem; a mídia imperialista internacional no passado, nestes dias de terror se transformou em jornalismo solidário internacional - estamos aprendendo a ler em inglês, alemão, francês, italiano e espanhol para nos mantermos informados sobre o Brasil. Down is the new up.

Há bastante motivo para ficar pessimista, entretanto, muito há para se alegrar.

Temos visto crianças e adolescentes ocupando criativamente escolas em São Paulo e a Assembléia Legislativa do Estado, para pressionar e se contrapor ao governo Geraldo Alckmin, pressionando-lhe a investigar desvios das verbas da merenda escolar. Jovens que apanham da polícia mas não se rendem provando que o chicote já não canta com a mesma força de há 300 anos.



Temos visto crianças discursarem sobre política e mostrar maior compreensão cidadã que os nossos deputados.

Temos visto professores, artistas, mulheres, trabalhadores e muitos movimentos sociais saindo da inércia e ocupando espaços.

Temos visto mulheres respeitadas dizerem "NÃO" ao convite para ocupação de assentos na Esplanada dos Ministérios de Michel Temer.

Enfim, temos visto uma nova geração de pessoas que se recusam a desistir de lutar pelo país, e se recusam a desanimar.



Temos inclusive visto muitas dessas coisas, porque experiências alternativas de comunicação como o Midia Ninja, tem conseguido viralizar otimisto em forma de vídeos e imagens através das redes sociais, sobretudo graças ao Marco Regulatório da Internet no Brasil sancionado pela presidenta Dilma Rousseff - assegurando a neutralidade de rede - e que o presidente interino Michel Temer pensa em revogar.

Em sua dissertação de mestrado - o sociólogo polaco Zygmunt Bauman - analisou a percepção que os ingleses tinham sobre a Revolução Industrial no período em que ela acontecia. Ele chegou à conclusão que no período que hoje conhecemos como sendo o da revolução, o povo inglês não fazia ideia de que ela estivesse ocorrendo. Talvez ocorra agora o mesmo com o Brasil, é possível que estejamos vivendo o curso de uma grande revolução, mas ainda não tenhamos nos dado conta dela. É dessa forma que eu prefiro viver este momento.

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