segunda-feira, 9 de maio de 2016

O Samba do Radiohead: A Moon Shaped Pool


Após anos de especulações e mistérios, no último domingo - 08/05/2016 - a banda britânica Radiohead pôs fim à combalida vida dos fãs ao lançar seu mais novo e ultra aguardado álbum: A Moon Shaped Pool - e aqui tecerei algumas impressões e reflexões sobre a nova obra do grupo de Oxford, que a bem da minha modesta audiência devo do pronto informar, não serão exatamente neutras.

Estratégias Simples e Eficazes


O lançamento de um álbum do Radiohead costuma ser precedido de meses - e até anos - de especulações que a própria banda costuma alimentar como uma estratégia de manter seu público sempre em conectado acompanhando o desenrolar dos eventos que habitualmente ocorrem de forma inusitada.

No caso de A Moon Shaped Pool, os rumores começaram a ficar mais freqüentes desde o final do ano passado quando um fã descobriu que eles havia iniciado o processo de abertura de uma nova editora para publicação de suas músicas, e desde então tem havido muita mobilização nas redes sociais em busca de outras pistas que pudessem desvendar o enigma do lançamento do álbum.

Curiosamente, em maio de 2015 - portanto, precisamente há um ano - houveram aparições estranhas de fotos do Thom Yorke em propagandas de livros e remédios no Irã e Rússia, será que isto já era uma indicação da banda para uma provável data de lançamento?


E mais recentemente, causaram histeria ao simplesmente deletarem todas as fotos e informações de suas contas oficiais das redes sociais, para imediatamente depois lançarem no Youtube um clipe que é a primeira faixa do novo álbum: Burn The Witch.

Simples e bastante eficaz!



O Álbum Orquestral do Radiohead 

O Radiohead sempre foi um grupo que insinuou muita erudição nos arranjos de suas músicas. Críticos costumam apontar referências à música de Reich e Messiaen, e inclusive já observaram trechos da obra de Wagner em uma das músicas do Ok Computer.

O próprio Jonny Greewood - guitarrista - tem tido uma destacada carreira como compositor erudito contemporâneo, tendo sido indicado e vários prêmios pela trilha sonora para o filme "Sangue Negro" - There Will Be Blood - do diretor americano Paul Thomas Anderson; e também realizando trabalhos em colaboração com o polonês Krzysztof Penderecki - um dos compositores eruditos mais badalados do século.


Jonny Greenwood colaborando com London Contemporany Orchestra

Assim sendo, sempre foi uma cobrança dos fãs e crítica - e ao que parece da própria banda - um álbum com contornos orquestrais.

O Radiohead sempre rejeitou por exemplo, a metodologia do Acústico MTV, tendo declinado todos os inúmeros convites recebidos. Mas desde o lançamento do In Rainbows - portanto há oito anos - que o Thom Yorke vem mencionando o desejo em trabalhar com material orquestral. 

Ele chegou chegou a explicar que não gostaria de fazer versões orquestrais ou acústicas para as músicas já conhecidas do grupo - daí porque provavelmente sempre rejeitou fazer um acústico MTV, além do seu pavor pessoal por coletâneas que descaracterizam os álbuns enquanto obra singular - mas ao contrário, gostaria de trabalhar com orquestração para músicas inteiramente novas, pensar um álbum com este conceito desde o seu início.

Prévias dos Arranjos para o Novo Álbum

Alí mesmo no In Rainbows [2007] já aparece Weird Fishes, música que começou a constar nos set lists da banda antes do lançamento com o nome de Arpeggi, e que fruto de uma colaboração entre Yorke e Greewood, ganhou uma versão para orquestra no estilo minimalista de Reich, que pode ser assistida aqui.

Mais recentemente, o Radiohead foi convidado a propor uma música tema para o último filme do agente 007, chamado "Spectre". A composição do grupo acabou por ser rejeitada como tema para o filme, mas o grupo a liberou na internet no final do ano passado, e ao ouvir A Moon Shaped Pool, somos inclinados a perceber que a canção homônima para filme do James Bond poderia ser facilmente uma das faixas do novo álbum. 


Retorno às Origens: Referências a Nick Drake

Não penso em resenhar todas as músicas do disco para evitar redundâncias, por isso vou me ater a apenas dois conjuntos de referências que me chamaram mais a atenção.


O primeiro sendo ao cantor e compositor britânico Nick Drake, de quem naturalmente Thom Yorke sempre esteve muito próximo, notadamente nos aspectos melancólico, insólito e etéreo de suas letras e melodias. Drake é uma lenda. E não apenas para Yorke, mas também para outros compositores muito influentes na obra do vocalista do Radiohead, como o americano Jeff Buckley - de quem Yorke acusa ter sido a inspiração para um dos maiores sucessos da banda, a canção Fake Plastic Trees.


Nick Drake: Uma das Maiores Referências do Folk Britânico

Nas faixas "Desert Island Disk", "Glass Eyes" e "The Numbers" - com forte pegada folk britânico - os arranjos em muito lembram a sofisticação proposta para o estilo por Nick Drake no final da década de 60: violões, cordas e percussões discretas - que em A Moon Shaped Pool se desenvolvem com a originalidade bastante característica do Radiohead.

O Samba do Radiohead

Desde o álbum anterior - The King Of Limbs - que o Radiohead vem flertando com a música brasileira. Na versão "ao vivo em estúdio" - The Basement - para a faixa "Little by Little" podemos claramente distinguir as células do baião. Já nesta época eu brincava com os amigos: Thom Yorke descobriu Luiz Gonzaga.

Esse encontro foi possível graças à colaboração de Yorke com o percussionista brasileiro Mauro Refosco, um dos integrantes do grupo Forró in The Dark - grupo de brasileiros baseado em Nova York. Eles estiveram juntos durante a produção e turnê do "Atoms for a Peace", trabalho independente do vocalista do Radiohead com um grupo de instrumentistas notáveis, entre eles, Flea - o baixista do Red Hot Chili Peppers. Outra referência ao baião pode ser encontrada na música Unless, do álbum AMOK.

Entretanto, apenas em A Moon Shaped Pool é que o Radiohead vai se render de fato às graças do samba, e em duas faixas: Presente Tense - que em muito lembra os esforços do violão de Baden Powell e arranjos originais para Canto de Ossanha, incluindo um coro feminino; e a última faixa do disco, a bossanovista "True Love Waits" - ao piano, lembrando mais o estilo de Tom Jobim.

O próprio Ed O'Brien - guitarrista - afirmou numa entrevista durante a tour brasileira do In Rainbows, que durante as gravações do Ok Computer o grupo ouvia muito bossa nova, e que as músicas daquele disco lembravam a bossa tanto menos pelos arranjos e mais pelo clima de saudade evocado na música brasileira. Em A Moon Shaped Pool eles finalmente abraçam o samba.

Presente Tense - a faixa afrosamba - termina repetindo versos como "In You I'm Lost" que poderia ser fácil livremente traduzida como: sem você meu amor eu não sou ninguém.

Por fim, ao constatar a saudade em bossa de "True Love Waits", falei para um amigo que era uma forma interessante de terminar um disco: deixando saudade - e fazendo um giro mental por todos os álbuns da banda, emendei que só então havia percebido que todas as últimas faixas dos álbuns do Radiohead sempre acabavam de forma muito melancólica. Ao que meu amigo me lembrou que o Thom Yorke costuma informar que terminar um disco é sempre um momento de muito sofrimento, porque ele prefere não terminá-lo, e seguir indefinidamente no estúdio.

Talvez Mr. Yorke sempre houvesse tentado nos traduzir sua "saudade", mas dessa vez ele sambou na nossa cara.







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