quinta-feira, 21 de maio de 2015

Lula nos Fez Reféns de Uma Conciliação Impossível




Os dias de turbulência política no Brasil tem sido férteis para o exercício do pensamento. Nada como um bom caos para que da lama possam brotar reflexões que possam nos organizar o juízo. Como me interesso muito mais pela autocrítica, citaria ao menos três textos que me inspiraram na análise que farei logo mais sobre o lado que tenho defendido nas últimas eleições, o primeiro deles, uma interessante entrevista do sociólogo André Singer que afirma: que o lulismo vive seu momento mais difícil porque sua capacidade de direção está em xeque; Uma outra boa crítica foi articulada por Frei Betto, afirmando que: o erro de Lula foi ter facilitado o acesso do povo aos bens pessoais, e não a bem sociais; e por último, Rosa Pinheiro-Machado, que discute a "Falência do PT a Ascensão da Direita e a Esquerda Órfã". E com a sua permissão, esboçarei a seguir também uma contribuição.


Lula: Negociação Insustentável e seus Paradoxos

De uma forma geral, o discurso do lulismo se baseava na premissa de que seria possível - em um Brasil "ideal" - erradicar a pobreza, fazer ascender uma classe trabalhadora e  dar lucro aos produtores industriais, a partir do programa de transferência do governo, o Bolsa Família. Da boca do próprio Presidente era possível ouvir textos como: ...ganha a dona de casa que vai ter o feijão para colocar na mesa; ganha o dono da mercearia que vai vender mais; ganha produtor que vai produzir mais, ou seja, todos ganham.

Mas a verdade, é que nem todos ganham. Esse discurso de ganho universal está repleto de paradoxos que foram exatamente a grande armadilha em que estamos metidos:
  • O primeiro paradoxo é o de que todo mundo ganha, sem ninguém ter que perder. Aprendi com minha avó desde cedo - acompanhando-a às compras na feira - que diferente do que dizem os manuais, negociar não é o ato de todos ganharem, mas sim, o de todos perderem. Se a banana está cara mas eu preciso levar, negocio um preço que não seja tão alto que me sinta lesado, e que também não desprestigie o meu vendedor, é o famoso: nem eu nem você.
Aplicando o teorema "Nem eu, Nem Você" da minha avó, vemos que o lulismo esbarra feio nessa matéria. O que a elite perdeu? Quais dos seus direitos foram ajustados ou regulados? 

Ao contrário, foram feitas inúmeras desonerações fiscais no sentido de reduzir a carga tributária da produção, e entretanto, nenhuma medida foi tomada para sobretaxar a renda dos grandes produtores que pagam proporcionalmente menos impostos que um trabalhador assalariado.
  • O segundo paradoxo remete à falta de compreensão da própria lógica da sustentabilidade. É impossível num ambiente de recursos finitos - sejam eles econômicos ou ambientais - "todo mundo ganhar" indefinidamente.
Em um ambiente em que todos os recursos foram exauridos, ou estão escassos, quem sempre teve mais continua com uma vantagem esmagadora, porque poderá consumir o que lhe sobra por muito tempo; entretanto, quem tem pouco não terá mais como ter nada, justamente porque a possibilidade de obter recursos - cada vez mais onerosos - está em colapso.

General-Presidente Artur da Costa e Silva

Conciliação Impossível

E por falar em conciliação, não posso deixar de fazer uma comparação entre o lulismo e o "milagre econômico" do regime militar brasileiro.

O general-presidente Artur da Costa e Silva preconizava em sua política econômica para o Brasil, que os ricos ficassem cada vez mais ricos, para que graças a eles os pobres ficassem menos pobres.


Colocando em perspectiva os últimos 12 anos de governo do PT, somos levados a considerar que a premissa do lulismo tentou subverter o protocolo da ditadura ao se pautar na hipótese de fazer com que os pobres ficassem cada vez MENOS pobres, para que os ricos continuassem cada vez MAIS ricos.


A conciliação econômica entre os interesses das elites brasileira e os que não pertencem a ela, assemelha-se ao dispositivo constitucional da Anistia para os nossos militares e revolucionários, como solução para preservar os direitos de todos: dos que tinham todos os direitos, e continuaram com eles; e dos que pouco tinham, e assim permaneceram - Mas pelo menos agora, vocês podem votar e ter uma imprensa livre! - Amém...

Obsolescência Perceptível

A desatualização tem sido pra mim, uma das marcas mais visíveis da política brasileira nos dias em que vivemos. Há uma grande sensação de obsolescência com todas as alternativas políticas e inclusive, com todo o espectro alternativo, mas em contrapartida, há pouco esforço para desinventar as velhas fórmulas.

Nos tornamos reféns de uma conciliação que se tornou obsoleta, porque a finitude de recursos impede que nós avancemos no processo de distribuição mais equitativa de renda, sem que os direitos econômicos de alguns sejam limitados: "Nem eu, Nem Você" - relembrando minha sábia avó.

Sabendo que não será mais possível seguir indefinidamente com todo mundo ganhando, a pergunta que se interpõe com grande força é: dessa vez, quem mais perderá, a elite ou os de sempre? Ou seria o momento de subverter mais uma vez as teses econômicas tradicionais, fazendo com que os ricos fiquem cada vez MENOS Ricos, para que os pobres possam ficar cada dia MENOS Pobres? Ou como diria Dona Nilde: Nem Eu, Nem Você ;)
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